18 de mai de 2012

Quando o belo Também é Despedida

Por tudo isso, não há por que fugir da tristeza. Há momentos em que ela é uma amiga verdadeiramente fiel.

biquinho tistQuero Falar da Tristeza.

Não me perguntem por que, pois eu mesmo não sei. A tristeza não pede licença, não se explica. Vai chegando de mansinho e espalhando seu perfume de jasmim pelas coisas, até que todas ficam encantadas pela beleza que nela mora. Ficam belas-tristes as nuvens do céu, tristes-belos os bem-te-vis nos galhos das árvores, belos-tristes os objetos silenciosos do meu escritório, e até mesmo o café-da-manhã fica triste-belo... A tristeza é sempre bela (isso é fala do Felipe Macedo rs), pois ela nada mais é que o sentimento que se tem ante uma beleza que se perdeu...

Não sei o que a chamou. Teria sido a visão das florestas ardendo, com seus prenúncios de desertos quentes e fins do mundo, os pássaros fugindo para nunca mais voltar? Ou a visita a lugares antigos amados... Ah! Quem ama nunca deveria voltar... Lembro-me dos versos que decorei, o poeta visitando paisagens de outros tempos e cadenciando a sua tristeza com um refrão que se repete. "São estes os sítios? São estes... Mas eu o mesmo não sou. Marília, tu chamas? Espera que eu vou". Até a bem-amada diva à espera quando o corpo tenta recuperar os espaços perdidos. Pois é. Visitei lugares de minha infância lé em Minas, e vi que a casa velha onde morei já não existe e nem a jabuticabeira que reguei e as três paineiras a cuja sombra me assentei. Fiquei ali, diante dessas ausências. E percebo que tristeza é isto: estar diante de um espaço onde um dia houve o encontro. Saber que, cedo ou tarde, tudo o que esta presente ficará ausente, A tristeza testemunha que o mistério da despedida esta gravado  em nossa própria carne. "Quem nos desviou assim", perguntava Rilke, "para que tivéssemos um ar de despedida em tudo o que fazemos?" Não é esta ou aquela despedida. As pequenas despedidas apenas acordam em nós a consciência de que a vida é uma despedida. O que Cecília Meireles dizia de sua avó morta podemos dizer da vida inteira: "Tudo em ti era uma ausência que se demorava, uma despedida pronta a cumprir-se..." Tristeza é isto, quando o belo e a despedida coincidem. O que revela o nosso próprio segredo, dilacerado entre o belo, que nos tornaria eternamente felizes, e os nossos braços, curtos dimais para segurá-lo.
"E quando nos sentimos mais seguros algo inesperado acontece: um pôr-do-sol... E estamos perdidos de novo..." (E. Browning). Mas que será aquilo que nos põe a perder? A beleza do Crepúsculo? Não. Mas a percepção de que beleza é crepúsculo. Goethe dizia do pôr-do-sol: "Tudo o que está próximo se distancia". Ao que Borges comenta: "Goethe se referia ao crepúsculo, mas também à vida. Aos poucos as coisas vão nos abandonando". O pôr-do-dol é triste porque nos conta que somos como ele: infinitamente belos em nossas cores, infinitamente nostálgicos em nosso adeus.
A tristeza é o espaço entre o belo e o efêmero, de onde nasce a poesia. Não é por acaso que os poetas repetem sempre o mesmo tema. "As nuvens à volta do sol que se põe", dizia Wordsworth, "ganham suas cores triste de um olho que contempla a mortalidade dos homens...

E assim os poetas vão colocando suas palavras sobre o vazio. Não vazio qualquer, vazio "pedaço arrancado de mim", mutilação no meu corpo. Exercício de saudade, tornar de novo presente um passado que já se foi. "Saudade é o revés de um parto, é arrumar o quarto para o filho que já morreu..."
E é só agora, Drummond, que compreendo o que você diz no seu poema chamado Ausência, onde você afirma não lastimar o espaço vazio. não deveria ser assim...Acontece que , depois da partida, só fica a ferida, ferida que não se deseja curar, pois ela traz de novo à memoria o belo que uma vez foi. "Por muito tempo achei que ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim, E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim... Não é estranho isto, que na tristeza more a beleza, e que se encontre aí mesmo um pouco de alegria? É mais bonita a dor de quem arruma o quarto para o filho que já morreu, que o vazio/ vazio de quem não tem nenhum quarto para arrumar.

Brinco com a minha tristeza como quem cuida de uma amiga fiel...


(É Rubem Alves NarCícerando)

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